quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Provérbios - Lição XVI; Quem não ouve cuidado...




Provérbios 7:1-27; KJA

1 Filho meu, obedece aos meus conselhos e no íntimo do teu ser guarda os meus mandamentos! 2 Segue as minhas orientações e descobrirás a verdadeira vida; zela pelos meus ensinos como cuidas da pupila dos teus olhos. 3 Amarra os meus mandamentos aos teus dedos; escreve-os na tábua do teu coração! 4 Dize à Sabedoria: “Tu és minha irmã!”, e ao Entendimento considera teu parente próximo; 5 eles saberão te manter longe da mulher imoral e da pessoa leviana e bajuladora.
6 Da janela da minha casa, por minhas grades, olhando eu, 7 vi entre os incautos, no meio de um grupo de jovens, um rapaz deveras sem juízo! 8 Ele ia e vinha pela rua próxima à esquina de certa mulher imoral, depois seguiu em direção à casa dela. 9 Estava chegando o crepúsculo, o final do dia, caíam as sombras do entardecer, rodeavam as trevas da noite.
10 Eis que a mulher lhe sai ao encontro, com vestes de prostituta e cheia de astúcia na alma. 11 Ela é sedutora e espalhafatosa, seus pés não suportam ficar em casa; 12 um momento na rua, outro nas praças, em cada esquina se detém à espreita de sua vítima. 13 Precipitou-se sobre o rapaz, beijou-o sem pudor e lhe declarou: 14 “Tenho em casa a carne dos sacrifícios de paz que hoje preparei para cumprir os meus votos. 15 Por esse motivo, saí ao teu encontro, a buscar-te, e te encontrei. 16 Já estendi sobre o meu leito cobertas coloridas de linho fino do Egito; 17 também já perfumei minha cama e o ambiente, com mirra, aloés e canela. 18 Vem, embriaguemo-nos com as delícias da sensualidade até o amanhecer; gozemos os prazeres do amor! 19 Pois o meu marido não está em casa; partiu para uma longa viagem. 20 Levou consigo uma bolsa cheia de prata e não retornará antes da lua cheia!” 21 Assim, com a sedução ardilosa das suas muitas palavras e gestos, persuadiu-o, com a lisonja e volúpia dos seus lábios, o arrastou. 22 E ele, sem refletir, no mesmo momento a seguiu como o boi levado ao matadouro ou como o cervo que corre em direção à emboscada, 23 até que uma flecha lhe atravesse o coração; como a ave que se apressa em saltar para dentro do alçapão, sem imaginar que essa atitude lhe custará a vida!
24 Agora, portanto, filho, dá-me toda a tua atenção e inclina os teus ouvidos às minhas palavras experientes: 25 Não permitas que teu coração se desvie para o caminho da mulher imoral, nem vagues desorientado pelas trilhas dessa pessoa. 26 Inúmeras foram as suas vítimas; e muitos são os que por ela foram mortos! 27 A casa dela é uma trilha que conduz precipício abaixo, rumo ao inferno, à morada eterna dos mortos."

Por Jânsen Leiros Jr.

A preocupação do sábio com o poder de sedução do pecado é tão grande, que ele dedica um trecho ainda mais longo sobre o tema. No caso, todo o capítulo sete de Provérbios vai tratar desse assunto que, definitivamente, ocupa muito o sábio, que se esforça em encontrar uma argumentação contundente e eficaz, para o convencimento de seu discípulo quanto a importância e pertinência da sabedoria. Esse trecho do livro é ainda mais abrangente que os anteriores.

Como faz em outros capítulos, ele começa sua argumentação realçando o papel da sabedoria no livramento do pecado. Ele, o pecado, não se revela como tal diante de nossos olhos, mas nos envolve, engana e seduz. Obedecer no íntimo do ser, é internalizar a orientação da sabedoria aos níveis dos reflexos que protegem os olhos de perigos imprevisíveis. Proteger a menina dos olhos, é um dos atos mais instintivos e naturais, que não precisa sequer de comando; uma reação espontânea de preservação.

Os Dez Mandamentos - 1956
Amarrando os mandamentos aos dedos, tudo em que se toca e tudo o que se faz pode ser avaliado e realizado segundo os preceitos do sábio. As tábuas do coração é onde os mandamentos devem estar escritos. Assim serão capazes de impulsionar os sentimentos e as sensações para tudo que é louvável. Porque no fundo, fazemos o que sentimos e as sensações são sempre muito mais impulsionadoras das atitudes do que a razão.

Tratando a sabedoria como uma irmã ou um parente, estabelecemos intimidade com ela, como nos fazemos íntimos de alguém com quem vivemos sob o mesmo teto. Além disso, parentes se protegem mutuamente. Se o papel de um é proteger o outro, o discípulo deve guardar a sabedoria, assim como será capaz de guardá-lo do caminho de morte, do engano, e da mulher adúltera; a personificação recorrente do pecado em seu poder mais declarado de sedução e engodo. Assim como o pecado, a mulher adúltera está sempre à caça de quem possa devorar (1 Pedro 5:8).

O sábio não está afirmando que apenas entre os jovens há falta de prudência e juízo, mas entre eles é mais normal existir quem, tentando se auto afirmar, se lance a uma aventura imponderável e fadada à morte. Ele não só será inevitavelmente seduzido, como se dá à essa sedução. Caminha inquieto de um lado para o outro. Aguarda a adúltera. Ele vai ao seu encontro. Procura por ela e por seus encantos. Ele não é em absoluto um inocente. Ele escolhe o caminho de sua casa e se aproxima de sua porta. Ele a quer. Ele a deseja. Não há nada que o possa parar, pois já se desviou propositalmente de seu caminho para estar ali, tão perto da mulher alheia. E o faz ao crepúsculo, escondendo-se como se escondem todos os que têm consciência de seus erros e de seus atos suspeitos.

É importante notar que a narrativa do sábio não coloca a adúltera atrás do jovem, embora ela seja inquieta e passeie pelas ruas e praças exibindo-se espalhafatosa e sensual. Antes é ele quem a procura por conta do desejo que despertou. Uma vez declarada as pretensões do jovem, então ela sai ao seu encontro com todas as suas armas de encantamento e envolvimento; vestida como prostituta e cheia de astúcia. No fundo ninguém é seduzido pelo que não lhe é relevante, interessante ou agradável. Eu, por exemplo, jamais cometeria o pecado da gula com uma panela cheia de abóbora cozida; eu não gosto de abóbora. Mas sou plenamente capaz de passar mal, se as latas de doce de leite não forem oportunamente escondidas de mim.

A sedução da adúltera é voraz. Não deixa espaço para cuidados, medos ou mesmo arrependimentos prévios. Ela o beija com ardor e sem pudor, deixando claro o quanto o deseja. Para o jovem ainda inexperiente isso funciona como algemas para a alma. Mas ela vai ainda mais longe e dá o golpe final. Ela lhe declara que suas obrigações religiosas, assim como seu ritual de purificação após as regras acabaram de ser cumpridos, o que a libera para o sexo. E notem, não obstante estar prestes a cometer o pecado de adultério, essa astuta demonstra uma religiosidade que serve de fumaça para os olhos do jovem. Sendo ela mais velha, sendo ela uma pessoa que cumpre fielmente suas obrigações religiosas, naturalmente sabe o que está fazendo e então não há nada de tão mal no que estamos prestes a cometer, devem pensar vários jovens diante de circunstâncias semelhantes. Sim, porque o processo de sedução do pecado é muito semelhante, seja ele qual for.

O cenário também cumpre um papel importante na sedução do erro. Perfumes e tecidos completam a possibilidade de experiências sensoriais desejáveis e atraentes. Tudo está perfeita e adequadamente providenciado para uma noite de prazer. Um lugar ideal, sem o risco de ser pego pelo marido que está em viajem, e sem o impedimento religioso de estar a mulher impura para o ato. E com muitos ardis, segue-a o jovem para o curral de pecado, como um boi ao matadouro. Ele caminha incauto para uma emboscada. Ele se deita para a morte, achando que será feliz, e que terá grande proveito em uma noite memorável.

É preciso ressaltar. O pecado opera assim. Mas como o pecado age naquilo que desejamos, naquilo que queremos e que gostamos, em nós habita o desejo por ele. Somos tentados e envolvidos por nossas próprias paixões. Ninguém, em absoluto, pode se dizer inocente diante do passo errado que deu, movido que foi por sua própria vontade e determinação. Somos totalmente livres, até para sermos feitos totalmente escravos.

Portanto o sábio quase suplica. Filho, diz o sábio com o amor e a compaixão de quem tenta livrar da morte aquele a quem ama. Não se desvie para o caminho da adúltera. Não a procure nem busque ir até sua casa. Usa da mesma liberdade que tens para ir para onde bem entender, para não ir para perto da mulher ardilosa. Foge dela. Ouça os meus mandamentos e a minha experiência. É claro que somos livres. É claro que podemos não dar ouvidos a nada e fazermos o que bem entendermos. É claro que todas as coisas nos são lícitas. Mas como afirmará Paulo séculos depois, nem todas nos convêm. 

Que a íntima relação com a Palavra de Deus e sua sabedoria, bem como o temor do Senhor, nos livre do aparentemente doce sabor do pecado, nos preservando livres em sua maravilhosa luz.